Autor: Pierre Scordia
Na movimentada Avenida Santa Fé, ela se surpreendeu com a escuridão repentina que tomou o céu. Com esperança de chegar ao Café Tortoni antes que os ventos e as chuvas torrenciais típicas de um verão portenho a alcançassem, atravessou a rua sem prestar muita atenção ao semáforo. O trânsito daquela tarde estava tão caótico que ela conseguiu ziguezaguear entre os carros com certa tranquilidade. Só queria alcançar a estação de metrô o mais rápido possível.
Desceu as escadas do Subte como um vendaval e chegou à plataforma da estação Scalabrini Ortiz. Estava lotada. Com seu um metro e setenta e cinco, Eva era mais alta que muitos de seus compatriotas. Magra, bonita e sempre sorridente, sabia que esse charme era útil em meio a multidões — os homens pareciam sempre dispostos a deixá-la passar. Naquele dia, vestia um leve vestido branco de verão e carregava uma pequena bolsa de mão com seus livros. A maioria dos passageiros, no entanto, carregava sacolas de compras; era dezembro, e os argentinos corriam às lojas antes que a inflação galopante consumisse seus salários. Eva pretendia gastar os seus no dia seguinte — alguns milhares de pesos que ganhara com traduções. Tinha acabado de concluir o primeiro ano da universidade. Queria sair de férias, mas ainda não decidira para onde ir — oscilava entre a sofisticada Punta del Este, no Uruguai, e Mar del Plata, onde seus pais tinham uma casa de veraneio.
Entrou no vagão e sentou-se, ansiosa para retomar a leitura. Em tempos conturbados como aqueles, evitar qualquer contato visual era o mais prudente. O país caminhava rumo ao abismo econômico, e os generais no poder se tornavam cada vez mais impopulares. A repressão política ganhava contornos cada vez mais brutais.
Lia O Retrato de Dorian Gray, no original. Eva escolhera estudar línguas porque desejava viajar o mundo e explorar o passado por meio da literatura. Tinha uma admiração especial pela Grã-Bretanha — respeitava aquele povo que havia imposto seu sistema parlamentarista a tantos e resistido com coragem à loucura nazista. Sabia das raízes judaicas de seu pai, embora fosse alemã por parte de mãe. Mas… será que teria nascido, caso os nazistas tivessem vencido? Será que sua aparência delicada e seus cabelos louros a teriam salvado? E se o General Perón e sua enigmática sociedade secreta GOU estivessem no poder com seus aliados alemães? Por um instante, Eva mergulhou nessas reflexões — até sentir um olhar intenso pousado sobre si. Levantou os olhos e percebeu um homem que a observava com atenção. Sentiu-se desconfortável.
Era evidente que ele não era da capital. Tinha a pele escura, olhos negros e brilhantes, e um nariz levemente curvado. Parecia um indígena, provavelmente de alguma província do Norte — ou talvez da Bolívia. Apesar da beleza incomum, seu olhar carregado de tristeza a inquietava. Era um olhar sensual, denso, melancólico. Um pressentimento ruim tomou conta dela. Lutou para evitar qualquer contato visual. Mergulhou novamente na leitura.
Na estação Callao, o vagão encheu-se. Uma mulher grávida pediu seu assento, que ela cedeu com prontidão. Guardou o livro na bolsa e agarrou-se firmemente a uma das alças suspensas. De repente, sentiu-se cercada por passageiros — em sua maioria, homens. O calor sufocante do verão fazia todos suarem, e os cheiros misturados a incomodavam. O estranho aproximou-se devagar, mais uma vez fitando-a com insistência. Eva sustentou aquele olhar, mas logo começou a se sentir mal. Tonta. Desmaiou.
Foi como ser lançada em outro tempo, outro lugar. Estava sozinha em uma rua deserta, numa cidade do Norte — Santiago del Estero. O ar seco e poeirento fazia o local parecer ainda mais vazio. Dois homens de terno e óculos escuros invadiram com violência um belo bangalô branco. Cinco minutos depois, arrastavam para fora um homem ensanguentado, com o rosto ferido e uma das pernas claramente baleada. Colocaram-no à força em um Peugeot e partiram. Eva os seguiu, como se pudesse se mover com o poder da mente. O carro parou diante de uma casa elegante. Ninguém a via. Dentro da casa, havia jaulas — homens e mulheres trancados. Jogaram o jovem ferido em uma delas.
Meia hora depois, ele foi retirado. O interrogatório foi cruel. Ele não falou. Gritava apenas quando recebia choques elétricos nos genitais, quando lhe arrancavam a unha do dedo indicador, quando apagavam cigarros em seu pescoço. Por fim, um oficial ordenou que fosse levado à Escola de Mecânica da Armada, na capital, para um “passeio de helicóptero”.
Agora, Eva ouvia o helicóptero sobrevoando o Atlântico Sul. Viu, impotente, o rosto inchado do rapaz, drogado, com as mãos e os pés atados a um tijolo. Quis ajudá-lo, mas não conseguia gritar, falar ou se mover. O que estava acontecendo com ela? Reconheceu o indígena. Era ele. Estava prestes a ser lançado de três mil pés de altura sobre o mar, longe da costa de Buenos Aires. E então, ela também caiu, como um anjo que falhou em sua missão.
Sentiu toques leves no rosto. Abriu os olhos. Era o estranho. Ele a segurava com um dos braços. Estava caída na calçada próxima à estação Tribunales.
– Você está bem, senhorita? Você desmaiou no metrô. Uma ambulância está a caminho.
– Estou tão confusa… Eu… eu não sei o que aconteceu. Fiz um escândalo. Me desculpe.
– Por favor, não se preocupe. Deve ter sido o calor.
– Foi muita gentileza sua me ajudar. Qual é o seu nome?
– Andrés Carrero. Sou estudante da Faculdade de Medicina.
– Você não é daqui, é?
– Não. Sou do Norte, de Santiago del Estero. Já esteve por lá? … Senhorita, tudo bem? Está muito pálida.
Atônita com a coincidência, Eva não conseguiu responder.
Por fim, sussurrou:
– Por favor… não volte para lá. Eu imploro…
– Não se preocupe comigo, senhorita. Não tenho a menor intenção de voltar ao Norte. Estou ocupado demais com os estudos. Buenos Aires é minha casa agora — respondeu ele com leveza.
Ele sorriu. Então, seu sorriso congelou. A alegria sumiu. O homem desapareceu.
Uma chuva torrencial caiu sobre a cidade.
E as lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Eva.
©2017 Pierre Scordia
